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FTP e watts no ciclismo: o que são e se precisas deles

FTP no ciclismo: o que significa, como se calcula, o que são watts por quilo e quando um potenciómetro faz sentido para um amador. Escrito em Oeiras.

FTP e watts no ciclismo explicados para amadores — VTR BIKE LAB, Oeiras

Resposta curta: No ciclismo, o FTP é, por convenção do treino com potência, a potência mais alta que consegues manter durante cerca de uma hora, medida em watts. Serve para calcular zonas de treino. Para quem está a começar não é obrigatório: a sensação de esforço e a frequência cardíaca chegam para organizar os primeiros meses. Um potenciómetro faz sentido quando já treinas com regularidade e queres intensidades exatas.

FTP no ciclismo: qual é o significado?

FTP vem do inglês Functional Threshold Power, “potência funcional de limiar”. É uma convenção usada por quem treina com potência, não um valor de laboratório: a potência que aguentas cerca de uma hora num esforço contínuo.

TermoO que é
Watt (W)unidade de potência: a força nos pedais vezes a velocidade a que giram
FTPpotência que aguentas cerca de uma hora (convenção)
W/kgo FTP a dividir pelo teu peso
Zonas de potênciaintervalos de intensidade calculados a partir do FTP

Como calcular o FTP no ciclismo?

Precisas de algo que meça watts: um potenciómetro na bicicleta ou um rolo interativo. Depois, há três caminhos:

  1. Esforço de cerca de uma hora, no máximo que consegues manter. É a definição, mas é duro.
  2. Teste mais curto com a conversão da aplicação. Prático, mas é uma estimativa.
  3. Estimativa automática do ciclocomputador, a partir das tuas saídas.

Qualquer número que saia daqui é um ponto de partida. Para comparar, repete o teste nas mesmas condições: mesmo rolo, mesma hora do dia, mesmo nível de cansaço.

Watts por quilo: para que serve?

Para comparar esforços quando o peso conta, sobretudo a subir. A conta é simples: W/kg = FTP ÷ peso em quilos.

  • Em subida, pesam mais os W/kg: levas o teu peso e o da bicicleta contra a gravidade.
  • Em plano, pesa mais a potência total e a resistência do ar.
  • Para ti, o W/kg só é útil comparado contigo, de teste para teste.

Medidor de potência: vale a pena para um amador?

Depende da fase em que estás.

Faz sentido quandoAinda não faz sentido quando
já treinas com regularidade e queres intensidades exatasestás nos primeiros meses e ainda crias o hábito
treinas muito no rolo interativo, que já mede wattso orçamento compete com capacete, luzes e uma bicicleta que te sirva
tens uma prova e um plano com zonaso que te trava é dor a pedalar: os watts não a explicam

Sem potenciómetro, como treino por intensidade?

Com a sensação de esforço e a frequência cardíaca. Não precisas de mais para começar.

FerramentaO que te diz
Sensação de esforçose consegues dizer frases inteiras ou só palavras soltas
Frequência cardíacaa intensidade por dentro; a máxima estimada é 208 − 0,7 × idade (Tanaka, 2001)
Potênciao trabalho que fazes, em watts, sem atraso

A fórmula de Tanaka (2001) é um ponto de partida: a fórmula antiga “220 − idade” subestimou a máxima nos mais velhos, e a variação de pessoa para pessoa continua grande.

Seja qual for a ferramenta, a maioria das sessões pode ser leve. Nos atletas de resistência de nível nacional e internacional, cerca de 80% das sessões são a baixa intensidade e cerca de 20% têm trabalho intenso (Seiler, 2010).

Um exemplo concreto

Ciclista que comprou um rolo interativo e fez o teste de FTP na primeira semana, cansado de um dia de trabalho. Ficou desanimado com o número e passou a treinar todos os dias “nas zonas”, quase sempre forte.

Pedi-lhe para repetir o teste no mesmo rolo, à mesma hora e descansado, e para guardar o primeiro valor só como ponto de partida. Depois reorganizámos a semana: a maioria das sessões leves e poucas duras, como descreve Seiler (2010). O número que conta é o dele, comparado consigo próprio.

Relatório da sessão de bike fit com as medidas no iPad, no estúdio VTR BIKE LAB, em Oeiras

O relatório da sessão, no estúdio, em Oeiras: ângulos e medidas da bicicleta, não watts

O que fazer hoje

  • Se não tens potenciómetro, treina pela sensação e pela frequência cardíaca.
  • Se tens, faz um teste e escreve as condições em que o fizeste.
  • Calcula os teus W/kg só para te comparares contigo, não com os outros.

Quando pedir ajuda

  • Treinador: para transformar o FTP em zonas e as zonas num plano.
  • Médico: antes de testes máximos se tens doença cardíaca, ou se sentes dor no peito, tonturas ou falta de ar fora do normal no esforço.
  • Medição da posição: desconforto que volta sempre ao mesmo sítio ou te obriga a parar antes do fim do esforço mede-se, além de se rever o treino. Os watts não o explicam.

Perguntas frequentes

O que significa FTP no ciclismo? É a potência mais alta que consegues manter durante cerca de uma hora, em watts. É uma convenção do treino com potência, usada para calcular zonas. Não é uma medição de laboratório nem um valor fixo: muda com o treino, o descanso e o próprio teste.

Qual é um bom FTP para um ciclista amador? Não dou números de referência: o FTP varia com a idade, o peso, o sexo, os anos de treino e o tipo de teste. Compara o teu FTP contigo próprio, de teste para teste, nas mesmas condições. É aí que se vê se estás a evoluir.

Como calcular os watts por quilo? Divide o teu FTP, em watts, pelo teu peso em quilos. O resultado é a potência por quilo. Conta sobretudo nas subidas. Em plano, pesa mais a potência total e a resistência do ar.

Fontes

  1. Seiler S. What is best practice for training intensity and duration distribution in endurance athletes? Int J Sports Physiol Perform. 2010;5(3):276-91. DOI 10.1123/ijspp.5.3.276 · PMID 20861519 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20861519/
  2. Tanaka H, Monahan KD, Seals DR. Age-predicted maximal heart rate revisited. J Am Coll Cardiol. 2001;37(1):153-6. DOI 10.1016/s0735-1097(00)01054-8 · PMID 11153730 — https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11153730/
  3. FTP (Functional Threshold Power): convenção do treino com potência (potência sustentável durante cerca de uma hora). Sem PMID: é uma definição de uso corrente, não um resultado de estudo.

Victor Castelo Branco — bike fitter, VTR Bike Lab, Rua Sacadura Cabral 23, Oeiras (Lisboa). Meço os cinco ângulos da pedalada em vídeo — joelho, anca, tronco, ombro e pé — e ajusto a bicicleta na própria sessão. Quem faz o fit.